sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Previsão, intuição, palpite ou adivinhação?

Nota : Escrevi este artigo em outubro de 2008 e o mesmo foi publicado (na época) por algumas mídias diferentes e, mesmo neste blog, já o divulguei.

Passaram-se mais de 6 anos, muita coisa boa e ruim aconteceu e estamos, novamente, diante de um momento em nosso país considerado crítico por muitos e sem perspectiva de solução.

Assim, convido-o a lê-lo para uma reflexão, fazendo uma analogia com as perspectivas para o Brasil em 2015!

Meu cordial abraço!
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Iniciei a redação deste artigo poucos dias após o governo dos Estados Unidos ter aprovado um pacote de ajuda ao sistema financeiro norte-americano de US$ 700 bilhões e no dia em que a Bolsa de Valores de São Paulo acumulava – em quatro dias úteis – uma perda de 19,4%, enquanto o dólar encerrava o dia cotado em R$ 2,31, representando uma desvalorização do real de mais de 40% em poucas semanas, significando uma verdadeira maxi-desvalorização.

Muito embora essa crise tivesse dado seus primeiros sinais há mais de um ano, ninguém teve a coragem de afirmar que grandes e tradicionais instituições financeiras norte-americanas e de outros países poderiam vir a quebrar alguns meses depois. Todavia, passadas algumas semanas da quebra de um dos maiores bancos de investimentos norte-americanos (Lehman Brothers) e a percepção generalizada de que estamos no meio (ou seria no início?) de um autêntico furacão nas finanças do mundo, também parece existir agora, um consenso de que ninguém, absolutamente ninguém, pode afirmar – com segurança – a dimensão do impacto das coisas que estão por vir e que certamente afetarão as economias dos países, das empresas e das pessoas mundo afora.

O nosso país, que tanto se beneficiou dos preços internacionais de várias commodities e vivendo uma das melhores fases econômicas de sua história recente, parece não querer acreditar na dimensão do problema e – através de pronunciamentos de vários representantes do governo – procura minimizar os efeitos danosos, ressaltando que o Brasil estaria preparado para enfrentar a crise e sem grandes dificuldades. Será isso uma realidade? O tempo dirá?

Quando o prezado leitor estiver lendo este artigo, provavelmente muita coisa já tenha ocorrido. Esperamos que decisões sensatas tenham sido tomadas pelos governos das principais nações do mundo e que as mesmas tenham sido suficientes para o restabelecimento da confiança da população em relação as instituições em geral. Se isso não acontecer, talvez o preço que a humanidade irá pagar seja tão alto que muitas décadas serão necessárias para que o mundo se restabeleça.

Que as palavras de Martin Wolf (colunista do Financial Times – 08/10/2008):
    
“O medo por trás do atual colapso nos mercados financeiros é tão exagerado quanto a ganância que provocou o comportamento anterior há pouco tempo. Mas pânico não justificado também causa devastação. Ele deve ser detido, não na próxima semana, mas imediatamente” 

representem apenas um palpite no que se refere ao “medo exagerado”, uma realidade em relação ao “pânico não justificado” e uma ação firme e consistente por parte dos governos mundo afora,  para que seja “detido... imediatamente”.


A crise e as organizações


Uma realidade: vivemos num mundo de incertezas!  Nesse contexto, torna-se quase impossível planejar com consistência. Imagine-se na condição do gestor, executivo, diretor ou proprietário de empresa que há algumas semanas concluiu a compra de equipamentos importados para a expansão do empreendimento ou matérias primas essenciais para o negócio, com o dólar cotado a R$ 1,60, ou outro que fechou um contrato de exportação relevante, baseando seus custos e preços nessa mesma cotação! Certamente, enquanto o primeiro estaria se lamentando e/ou buscando alternativas para se posicionar diante da situação, o segundo estaria comemorando as margens excepcionais que o contrato de exportação traria para a sua empresa.

Qual será o impacto que sua organização sofrerá?  Muitas questões podem ser levantadas, não significando isso nenhuma previsão, nem intuição ou palpite e muito menos adivinhação.

Grandes organizações brasileiras com ações negociadas na bolsa de valores, por se tratar de companhias abertas e com obrigações junto a CVM e acionistas, se anteciparam e vieram a público reconhecer e informar perdas bilionárias com a exposição a derivativos cambiais (Ex: Sadia sofreu prejuízos de R$ 760 milhões, a Aracruz divulgou que o valor justo dos contratos cambiais seria de R$ 1,95 bilhões negativos se fossem liquidados até 30 de setembro e o Grupo Votorantim comunicou, no final da segunda semana de outubro, que precisou gastar R$ 2,2 bilhões para eliminar totalmente sua exposição a derivativos cambiais).

Nas empresas que têm  forte dependência do mercado externo no suprimento das matérias primas e/ou de mercadorias destinadas à comercialização, o momento exigirá muito sangue frio e serenidade na avaliação do que necessita ser feito, mesmo que os responsáveis por tais decisões sejam gestores experientes e qualificados, pois são muitas as variáveis que poderão influenciar o futuro dos negócios dessas organizações. Como se comportará o dólar no curto, médio e longo prazos? Será que o governo brasileiro e o Banco Central estarão dispostos a “queimar” reservas suficientes para manter a cotação num patamar razoável e sem comprometimento da estratégia monetária do país? É possível definir uma estratégia de negócios de curtíssimo prazo com grandes flutuações da moeda norte-americana? Se for possível, de que forma viabilizá-la? Se a cotação do dólar retomar, de forma consistente e firme, patamares superiores a R$ 2,50, a importação de matérias primas propiciará a geração de vendas de volumes suficientes e com margens mínimas que justifiquem a manutenção do negócio?

Provavelmente, as respostas para essas e tantas outras questões talvez não passem de previsões ou opiniões onde os fundamentos que poderiam garantir a sustentação das teses já não terão os mesmos comportamentos previsíveis, os quais, historicamente, sinalizavam e norteavam tantas e tantas decisões e direcionamentos por parte dos gestores das organizações.

Nas empresas que são ou estão dependentes de empréstimos e financiamentos bancários na gestão do capital de giro, poderão advir sérias complicações decorrentes das restrições e limitações nas linhas de crédito, bem como das taxas de juros que poderão atingir patamares impossíveis de serem gerenciados para a manutenção da solvência e qualidade de uma organização saudável financeiramente.

Principalmente nos últimos três anos, entre tantas coisas positivas, a economia brasileira apresentou crescimento do nível de emprego e de salários, redução da informalidade, surgimento de centenas de novas pequenas empresas e aumento do consumo com forte expansão das linhas e prazos de financiamento para a população de baixa renda e classe média.

Enquanto o setor automobilístico registrou os maiores níveis de produção e vendas, com recordes sucessivos, graças a um mercado interno fortemente aquecido pela facilidade na concessão de financiamentos de veículos (com prazos de pagamento nunca antes vivenciados em nosso país), o segmento da construção civil registrou o lançamento de milhares de novos empreendimentos imobiliários das mais variadas modalidades: condomínios residenciais com muita infra-estrutura de lazer, edificações compostas de conjuntos de lojas, escritórios, consultórios e apartamentos, shoppings centers, prédios comerciais e industriais, etc. Se confirmar-se a previsão dos “catastrofistas” de plantão de que o mundo entrará numa profunda recessão econômica, o que acontecerá com os empregos de milhões de pessoas que se endividaram em limites superiores a capacidade de solvência de seus compromissos?  Se essas pessoas pararem de honrar suas dívidas, como ficarão as empresas que concederam o financiamento e as empresas construtoras em relação aos projetos em andamento?

Embora cada um de nós tenha o direito de fazer previsões, prognósticos e tentativas de adivinhações, na realidade atual tudo não passa de pura especulação.     

Os meios de comunicação alardeiam somente o que é ruim, desastroso e catastrófico, gerando nas pessoas a sensação do medo, da angústia e sentimento de impotência e incapacidade de reação. Tal postura, neste momento, é lamentável, principalmente porque o ser humano se fragiliza diante de acontecimentos que ele não tem condições de avaliar em maior profundidade. Assim, sentindo-se desprotegido diante desses novos contextos e sem garantias em relação ao futuro de suas finanças pessoais, emprego ou negócio, passa a agir de forma defensiva, alimentando ainda mais os componentes que, de fato, podem levar o nosso país e o mundo para uma profunda recessão.

Como gestor de empresa, sério, responsável e competente, possivelmente você terá os maiores desafios de sua vida profissional nos próximos meses e, quem sabe, nos próximos anos. Manter a serenidade no meio de tantas incertezas e caos aparente será o seu grande desafio. Cerque-se de pessoas realistas, mas que tenham posturas positivas diante das adversidades, que não temam o desconhecido e que estejam dispostos a enfrentar os obstáculos com garra, firmeza e determinação.

Todos nós continuaremos convivendo com os palpiteiros de plantão, os quais estarão pronunciando-se em entrevistas nas principais estações de rádio, nos mais badalados telejornais, nos jornais e revistas de maior circulação e em dezenas de eventos de negócios organizados por empresas especializadas, as quais já percebem que dispõem de mais um ótimo tema para lançamento de seminários, workshops, palestras ou fóruns de debates, afinal, vivemos num mundo capitalista e as oportunidades não podem ser perdidas.

Dentro das organizações, muitos “donos da verdade” talvez tenham a receita ideal para superação das dificuldades. Todavia, dependendo do que vier pela frente, o medo e a insegurança também tomarão conta desses “seres especiais”, levando-os a juntar-se a maioria, esperando que soluções salvadoras ou milagrosas possam chegar de alguma parte.

Mais uma vez, principalmente para aqueles que já atuam profissionalmente há mais de três décadas, provavelmente estaremos diante de experiências nunca antes vivenciadas e é exatamente por isso que temos, novamente, a oportunidade de demonstrar nossa capacidade de superação, tendo nos obstáculos e desconhecido, os ingredientes necessários como combustível que nos conduzirão, outra vez, para grandes conquistas.

As incertezas e o caos deverão representar oportunidades para todos aqueles que ainda acreditam que estamos aqui como agentes de transformação, com força e energia capazes, se necessário, de criar novos contextos de relações, de respeito e de esperança de um futuro melhor para as novas gerações.

Calma, caro leitor, não se desespere!

Talvez o mais prudente é não levar tão a sério o que aqui foi escrito, pois afinal também não tenho bola cristal, não sou vidente ou cartomante, não jogo búzios nem tarô e não acredito em gurus que fazem previsões sobre o futuro. E você acredita?

Bom trabalho e até a próxima edição!

Autor: Carlos A. Zaffani  -  Consultor em Gestão de Empresas 

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

FELIZ NATAL E UM NOVO ANO DE MUITAS CONQUISTAS!

Caríssima(o),

Prestes a adentrarmos na última semana do ano, gostaria de desejar à todos que este Natal traga a energia do renascimento e que em 2015 possamos construir um novo período onde saibamos agradecer mais, tornar realidade os nossos sonhos, valorizar mais as pessoas pela grandeza interior, incentivar as famílias a fortalecerem a união, sermos inspiração para uma sociedade mais justa, ajudar a diminuir as grandes desigualdades sociais, praticar e defender sempre o bem e a verdade, abolir o medo de nossas vidas, viver cada dia sem ansiedade em relação ao futuro, ser mais amigo, cordial, amável, alegre e, principalmente...

... incentivar a perseverança de todos na busca da felicidade do próximo, pois afinal, esse é o grande segredo para uma vida feliz!

Feliz Natal! Feliz 2015!

Sempre com Deus em sua vida!

Cordial abraço e sucesso... sempre!
Carlos Zaffani
Consultor em Gestão de Empresas


quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Espiritualidade nas empresas: o homem em essência

Este é um tema que, ao menos, deveria instigar todos os profissionais!

Tenho certeza de que isso não ocorre, principalmente porque vivemos numa sociedade que incentiva o materialismo, o individualismo, o narcisismo e por aí afora.

Seja como for, continuo acreditando que é possível desenvolver a ESPIRITUALIDADE também dentro das organizações. E foi com esse objetivo que - há poucos dias - concedi entrevista para o site www.rh.com.br .

Para acessá-la diretamente, basta clicar no link abaixo:

 http://www.rh.com.br/Portal/Desenvolvimento/Entrevista/9554/espiritualidade-nas-empresas-o-homem-em-essencia.html

Boa leitura e reflexão!

Carlos Zaffani
Consultor em Gestão de Empresas

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Encontrando motivação através do entusiasmo!

Você parou para refletir sobre por que a maioria das pessoas é tão pouco criativa? Ou por que freqüentemente não se sentem suficientemente motivadas? Você parou para pensar por que nos deixamos dominar por “pequenos problemas” ao invés de enfrentá-los com coragem e determinação? Ou quantas foram as vezes em que misturamos os contextos de nossa vida profissional com os de nossa vida pessoal ? Ou ainda como é comum nos sentirmos ofendidos por qualquer coisa? Provavelmente você, caro(a) leitor(a) também já deve ter se sentido “perseguido” ou “injustiçado”. Estou certo?

Pois é! Por que será que algumas pessoas continuam apresentando atitude e energia tão especiais e saudáveis para a vida e a grande maioria não?

A realidade é que poderíamos preencher páginas e páginas com muitos “por que?” e, provavelmente, a maioria encontraria dificuldades para responder com plena segurança, ou quem sabe, as respostas seriam muito diferentes umas das outras.

Seja como for, será que não é chegado o momento para você rever suas ATITUDES e POSTURAS diante dos acontecimentos e circunstâncias que a vida apresenta?  Diante de sua família?  Da comunidade? Dos colegas de trabalho? Dos problemas em geral? De sua vida afetiva? Profissional?

Será que não chegou o momento de você colocar mais ENTUSIASMO em sua vida?

Segundo alguns estudiosos, uma das palavras mais fortes de nosso idioma é justamente a palavra “ENTUSIASMO”. Essa palavra é originária do grego “enthousiasmós”,  que quer dizer:  “Deus em si”. Pois é isso mesmo: quando você coloca entusiasmo em suas palavras e atitudes, você estará exteriorizando um força poderosa que existe dentro de si !

Concordo plenamente com aqueles que acham que o entusiasmo supera o otimismo, pois enquanto o otimista acha que vai dar certo, o entusiasta FAZ DAR CERTO!  

Não existe um receituário para motivar as pessoas através do entusiasmo, porém abaixo relaciono uma série de recomendações, atitudes e ações que certamente ajudarão:

  1. Tenha, sempre, objetivos em sua vida. Estabeleça-os claramente (inclusive com datas) até que estejam fortemente presentes em seu subconsciente. Crie-os para todos os planos de sua vida: afetivo, familiar, profissional, perante a comunidade / sociedade e espiritual.

  1. Valorize sua família e amigos. Faça algo para, ou por alguém que há muito tempo você não faz.

  1. Trabalhe com alegria. Se a alegria não está presente no seu cotidiano profissional, você precisa descobrir a razões e buscar os meios necessários para introduzi-la.

  1. Jamais deixe de buscar... arriscar... tentar!  Nunca se esqueça de que o medo de perder acaba destruindo a vontade de ganhar!

  1. Seja perseverante! Na vida, erros e acertos, dificuldades e barreiras, vitórias e derrotas estarão sempre presentes, porém a perseverança o conduzirá ao seu objetivo.

  1. Jamais saia do caminho da VERDADE.  Nunca se esqueça que a pior verdade  supera a melhor mentira!

  1. Ouça sua intuição nos momentos de indecisão. Lembre-se de que todos nós temos um conjunto de competências armazenadas em nosso inconsciente e quando as trazemos para fora, estamos desenvolvendo a sabedoria (e não o conhecimento!).

  1. Procure fazer mais felizes as pessoas que estiverem ao seu redor (em todos os contextos de sua vida).

  1. O “hoje  deve sempre ser o dia mais precioso de sua vida.

  1.  Não reclame.  Não fale mal dos outros. Não dê “ouvidos” aos comentários maldosos e às fofocas!

  1.  Seja sempre prestativo e esteja pronto a colaborar com os outros!

  1.  Preste atenção nos detalhes.  Muitas vezes neles estão “escondidos” os grandes ensinamentos e as melhores oportunidades da vida.

  1.  Quando enfrentares uma situação difícil, de dor ou de sofrimento, busque extrair os ensinamentos para o crescimento interior e espiritual.

  1.  Não tenha medo do desconhecido.

  1.  Seja cortês, simpático e alegre, pois isso o ajudará a abrir novas oportunidades e desenvolver ótimas amizades.

  1.  Sem nostalgia ou tristeza, relembre boas idéias do passado. Faça isso com alegria!

  1.  Procure desenvolver o hábito de fazer as coisas mais simples de maneiras pouco convencionais.

  1.  Coloque suas idéias em prática. Não tenha medo da rejeição, do ridículo ou do fracasso!

  1. Esteja sempre aberto ao aprendizado. Use sua imaginação!

  1.  Lembre que a “sorte” é a combinação da oportunidade com a competência. Por isso, quando a oportunidade surgir (e ela aparece para todos em vários momentos da vida!) esteja bem preparado.

  1.  Seja solidário. Doe seu tempo, seu talento e inspiração à uma causa nobre.

  1.  Seja generoso nos elogios e cauteloso nas críticas.

  1.  Diante de uma controvérsia, lembre-se que ela apresenta três lados: o seu, o do outro e o lado de quem está certo.

  1.  Procure sempre prestar um excelente serviço em todas as circunstâncias, pois o que realmente vale em nossa vida é aquilo que fazemos para os outros.

Estou seguro de que tudo o que comentei acima não representa nenhuma novidade e você já leu em algum lugar ou ouviu algum dia.  Então pergunto: Por que você não toma uma ATITUDE corajosa e coloca em prática tudo isso? Experimente?  Você vai descobrir uma nova MOTIVAÇÃO para sua vida!

A hora é de ação!  Seja feliz!


Autor: Carlos A. Zaffani  -  Consultor em Gestão de Empresas

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Terceirização: solução, problema ou mais confusão?

Penso que quando as primeiras atividades foram terceirizadas nas empresas (início da década de 70 do século XX), ninguém imaginaria que tal processo tomaria tamanhas proporções em nosso país, sendo utilizada em larga escala nas pequenas, médias e grandes empresas e criando muitas discussões entre estudiosos, gestores de recursos humanos e empresas, conflitos entre empregados e empregadores e milhares de reclamações no âmbito da Justiça do Trabalho.

Evidentemente, este é um tema que, ao longo do tempo e em função de sua amplitude e controvérsias, tornou-se objeto de inúmeros livros, estudos, artigos e decisões judiciais e, portanto, não posso ter a pretensão de tratá-lo profundamente e em todas as suas variáveis neste espaço.

Se assim é, me atreverei a trazer somente algumas abordagens e, espero com isso, contribuir apenas com uma “pitada intrometida” de um profissional que já conviveu bastante com o processo e sente que, para ser realmente válido como instrumento de gestão em alto nível, muita coisa precisa ser revista no âmbito das relações em geral e do judiciário trabalhista.

De forma bem didática, no âmbito das organizações, podemos dizer que a terceirização é um processo pelo qual uma empresa contrata outra para desenvolver uma ou mais atividades que, por alguma razão, não lhe interessa executar com seus próprios funcionários. Desse modo, a empresa que terceiriza é a “contratante” e a empresa que executa é a “contratada”.

Entre os defensores da terceirização, as principais vantagens que seriam obtidas com o processo, estariam: concentração do foco na atividade da empresa, a melhoria da qualidade e da produtividade, a desburocratização da estrutura organizacional, melhoria das condições ambientais, redução do número de acidentes do trabalho, redução dos custos fixos, trabalhistas e previdenciários.

De outro lado, os opositores ao processo entendem que a terceirização gera: a criação de uma categoria de empregados de “2ª classe”, redução dos benefícios concedidos aos funcionários das empresas terceirizadas, possível queda da qualidade e produtividade, deterioração social das relações trabalhistas, fragmentação da força da classe trabalhadora, maior dificuldade no controle da produção, qualidade e custos e a dependência da empresa contratante.

Ao analisarmos as opiniões acima, observamos que a realidade mais presente nas organizações nos direcionam para os opositores do processo, mesmo sem destacar uma das mais graves consequências: as contingências decorrentes das reclamações trabalhistas originadas dos empregados das empresas terceirizadas e a questão da responsabilidade solidária e/ou subsidiária das empresas contratantes. 

Particularmente, acredito que a terceirização nasceu com “boas intenções”. Todavia, no final da década de 80 do século XX e a necessidade das empresas se modernizarem e tornarem-se mais competitivas para enfrentar os desafios da globalização, impuseram às mesmas, processos de reengenharia e construção de novos modelos de gestão, os quais incentivaram o fortalecimento e expansão da terceirização com foco obstinado na redução de custos e não no aprimoramento e desenvolvimento das competências para as quais foram criadas.

Portanto, é a partir daí que começaram a nascer os conflitos trabalhistas, pois duas vertentes de atividades foram e continuam a ser consideradas na terceirização: atividade-meio e atividade-fim.

Por “atividade-fim”, entende-se aquela que faz parte do processo específico da produção de um bem ou serviço e que é a razão da existência da empresa. Exemplo: numa fábrica de sorvete, as atividades-fim são todas aquelas necessárias à produção do sorvete. Já a “atividade-meio” é aquela que apóia ou suporta a produção do bem ou serviço. Exemplo: nessa mesma fábrica de sorvete, a atividade de limpeza da fábrica é uma atividade-meio.

É intensa e desgastante a discussão a respeito da possibilidade ou não da terceirização em atividades-fim das empresas e, mesmo no âmbito do judiciário trabalhista, tendo por base a jurisprudência predominante no TST, a maioria é contrária a utilização do processo em atividades-fim.

Sobre o assunto, concordo com o juiz Reginaldo Melhado (titular da 6.ª Vara do Trabalho de Londrina e coordenador da Escola Judicial do Tribunal Regional do Trabalho do Paraná) quando afirmou:

“que   a   diferenciação   entre   atividade-meio  e  atividade-fim   para
caracterizar   a   licitude  ou  ilicitude  da terceirização não é aceitável,
porque a evolução e o aperfeiçoamento da administração empresarial
são uma necessidade imposta pelo mercado competitivo,  daí porque
deve  ser  afastada  a  idéia  preconceituosa  de  que  a  terceirização
somente   é    legal  quando  realizada   em   atividades-meio,   sendo
previamente  ilegal  nas  atividades-fim  da  terceirizada,   na  medida 
que   a  complexidade  do   processo  produtivo chega a tal ponto que
muitas  vezes,  é   impossível   diferenciar   as  ações  acessórias das
principais,  e  isto  ocorre  em face da contínua mutação das técnicas
de produção.  (grifo nosso)

Apesar de absolutamente inteligente e coerente tal posicionamento, a questão não se resolve porque a maioria das empresas continua enxergando e utilizando a terceirização como um processo que visa a redução de custos.   

Podemos até concordar que a terceirização na atividade-fim possa estar muito próxima da ilicitude, pois sempre é muito difícil provar a ausência da subordinação direta. Seja como for, é preciso compreender que o conceito de atividade-fim vem tornando-se, cada vez mais, relativizado, principalmente como decorrência do grau de especialização das empresas, o que impõe a investigação (caso a caso) da presença ou não dos requisitos da relação empregatícia.

O outro ponto discordante no âmbito do judiciário trabalhista diz respeito a responsabilidade solidária e subsidiária das empresas tomadoras de serviços, com relação aos empregados contratados por intermédio de empresas terceirizadas. Isso ocorre  principalmente porque embora o artigo 455 da CLT estabelece que “nos contratos de subempreitada responderá o subempreiteiro pelas obrigações derivadas do contrato de trabalho que celebrar, cabendo, todavia, aos empregados, o direito de reclamação contra o empreiteiro principal pelo inadimplemento daquelas obrigações por parte do primeiro”, a Súmula 331 do TST estabelece, entre outras coisas que:

a) a contratação de trabalhadores por empresa interposta é ilegal, formando-se o vínculo diretamente com o tomador dos serviços, excetuando-se os casos de trabalho temporário, serviços de vigilância e de conservação e limpeza, bem como os serviços especializados ligados à atividade-meio do tomador, desde que inexistente a pessoalidade e a subordinação direta; e

b) se as obrigações trabalhistas não forem adimplidas pelo empregador, tal fato implica na responsabilidade subsidiária do tomador de serviços.

De fato, a doutrina e jurisprudência majoritária defende a existência da responsabilidade subsidiária do tomador de serviços, uma vez que apesar do pagamento das obrigações trabalhistas ser de responsabilidade da empresa terceirizada (é ela que contrata diretamente os empregados), a empresa contratante assume a responsabilidade subsidiária, independente da existência do vínculo empregatício, uma vez que sendo feito o trabalho em benefício do tomador de serviços, compete a ele zelar pelo pleno cumprimento das obrigações trabalhistas do contrato entre as partes. Tal corrente majoritária, parece-nos, baseia-se, por analogia, no artigo 455 da CLT.
De outro lado, os que defendem a responsabilidade solidária assim fundamentam: “A responsabilização do contratante, do dono da obra, do beneficiário direto da mão-de-obra terceirizada, do tomador de serviços, de forma geral, ainda que a lei seja um tanto omissa, é inquestionável, no Direito do Trabalho, pois além de tratar-se de questão social em relação ao trabalhador, que é hipossuficiente e tem sua remuneração como de natureza alimentar, deve-se levar em conta, ainda, a efetividade do exercício jurisdicional, para que decisões na esfera trabalhista não fiquem sem a devida e necessária execução e satisfação diante da competência dos contratados, dos intermediadores, independentemente, até, de tratar-se de atividade-fim ou não, de constituir-se em terceirização legal ou ilegal. O beneficiário da terceirização não pode estar alheio ao prejuízo do trabalhador, sob pena de enriquecer sem causa. (MERCANTE, Carolina Pereira. A responsabilidade subsidiária do Estado pelos encargos trabalhistas decorrentes da contratação de serviços terceirizados . Jus Navigandi, Teresina, ano 9, n. 566, 24 jan. 2005. Disponível em: http://jus2.uol.com.br/doutrina/texto.asp?id=6209).

Para finalizar e para que cada um possa formar sua própria opinião, é importante esclarecer o que são “responsabilidades subsidiária e solidária”.

Em relação a responsabilidade subsidiária, embora não exista uma previsão expressa na lei, encontramos na jurisprudência várias aplicações. Os autores renomados do campo do Direito Civil, Rodolfo Pamplona e Pablo Stolze, assim esclarecem a responsabilidade solidária:

                        “Vale lembrar que a expressão “subsidiária” se refere a tudo que
                        vem em “reforço de” ou “em substituição de”, ou seja, não sendo
   possível executar o efetivo devedor   – sujeito   passivo direto   da
                        relação jurídica obrigacional – devem ser executados  os  demais
                        responsáveis pela dívida contraída”. (grifos nossos)

Já a responsabilidade solidária presume que vários agentes possam ser, simultaneamente, responsabilizados, ou seja, mesmo que uma única pessoa tenha cometido o dano, desde que outras concorreram para que o mesmo ocorresse, todas tornam-se, civilmente, responsáveis.

O Juiz do Trabalho e autor de livros na área do Direito Trabalhista, Ari Pedro Lorenzetti se manifesta que a responsabilidade solidária pode ser definida como “a vinculação de vários sujeitos à satisfação de uma obrigação jurídica, permitindo ao credor escolher de qual ou quais deles pretende obter, total ou parcialmente, a prestação a que tem direito”.

E você, caro leitor, o que acha de tudo isso?


Autor: Carlos A. Zaffani - Consultor em Gestão de empresas

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Informação gerencial: o calcanhar de Aquiles das empresas!

Em conversas com gestores de empresas, é comum ouvir-se que a competição cada vez mais acirrada faz com que os mesmos sintam-se mais e mais pressionados em buscar soluções engenhosas e inovadoras para que suas organizações possam manter-se e destacar-se no  mundo atual, pois a realidade é que elas estão, há cada dia – conforme já destacado anteriormente - mais parecidas umas às outras, fazendo com que pequenos detalhes representem o sucesso para algumas e o fracasso para outras.

Costumo destacar que gerir uma empresa é e continuará sendo um maravilhoso desafio para os responsáveis porque misturam-se, entre outros, diferentes visões, objetivos, competências,  culturas, conhecimentos, experiências, ambições, percepções, valores e recursos materiais, financeiros e tecnológicos.  Ocorre, entretanto, que mesmo com todos os meios e tecnologia disponíveis e após tantos anos de vida executiva e consultoria em gestão, estou convencido que uma das principais fraquezas da maioria das organizações brasileiras, continua sendo a baixa qualidade dos sistemas internos de informações gerenciais. 


Três grupos distintos

De uma forma bem objetiva, identificamos três grupos distintos de empresas com tais deficiências. Geralmente, nos dois primeiros grupos encontramos a maioria das médias e algumas grandes empresas, ou seja:

  • No primeiro grupo estão as organizações que já possuem instalado algum sistema de gestão integrado (ERP) e que, após muito tempo e quase sempre incorrido em altos investimentos, pouco conseguiram de melhoria na qualidade e eficácia das informações gerenciais.

  • No segundo grupo estão as empresas que desejam -  e por isso continuam procurando  - um “sistema adequado às suas necessidades”, pois acreditam que ao implantarem um ERP estarão solucionando todos os seus problemas.

Para esse dois grupos de empresas, porém, a realidade continua sendo muito diferente, demonstrando – muito menos em razão da qualidade e valor dos ERP´s  – que:

·    nem sempre os altos investimentos requeridos (antes, durante e depois da implantação),  garantem um eficaz sistema de informações gerenciais; e

·    a falta de ação / atitude dos responsáveis pela gestão, contribui fortemente para a manutenção do “status quo” e quem mais perde com isso é a própria organização.

  E por que isso ocorre ?

- Quase sempre, em razão da visão limitada dos profissionais envolvidos, os quais:

·    em relação ao primeiro grupo, não conseguem focar naquilo que é realmente relevante para a gestão da empresa, e como conseqüência,  são criados e desenvolvidos dezenas (às vezes centenas) de controles e relatórios que pouco contribuem para o bom gerenciamento da organização; e

·    em relação ao segundo grupo,  porque não se apercebem da fragilidade ou deficiência de seus sistemas de informações gerenciais ou quando têm essa consciência, apresentam as mais variadas justificativas (ex: investimentos requeridos, estrutura, porte da empresa, etc) para não buscar uma solução definitiva.

Por fim, no terceiro grupo, estão as empresas (geralmente de menor porte) menos preocupadas com sistemas integrados e que acreditam dispor das informações e dados relevantes para uma boa gestão, tais como: Acompanhamento das vendas, Carteira de pedidos, Volume de compras, Faturamento, Caixa e alguns indicadores de performance.  Essas empresas apresentam características comuns que destacam a forte presença do(s) proprietário(s) e que conseguiram superar muitas adversidades ao longo do tempo sem qualquer sistema de informação gerencial mais eficiente.


Características em comum


Na prática, tenho observado que os três grupos de empresas mencionados apresentam algumas características comuns em suas performances :

  • crescem quando o mercado está favorável;  e
  • sofrem demais  - e algumas desaparecem – quando a economia enfraquece, a demanda cai ou a concorrência fica mais acirrada. 
Lamentavelmente, muitas organizações descobrem tardiamente que o conjunto de informações gerenciais de que dispõem é ineficaz e insuficiente para garantir a acertividade na tomada de muitas decisões cruciais, tais como: definição de preço para uma grande concorrência, continuidade de um negócio ou produto, expansão da empresa, aumento ou redução de capacidade instalada, análise de margens de contribuição e rentabilidade, etc.  Infelizmente, somente em tais circunstâncias é que muitas empresas descobrem porque é essencial dispor de um eficaz sistema de informações gerenciais, porém quando isso acontece para algumas,  já terá sido tarde demais!



Informações gerenciais eficazes

Fundamentalmente, a mais importante premissa para a construção de um eficaz sistema de informações gerenciais está na existência de um bom sistema e processamento contábil, compreendendo, pelo menos :

  • Plano de contas bem estruturado e adequado ao porte da empresa;
  • Registro dos fatos contábeis com acertividade, melhor previsibilidade possível (quando necessário) e nas datas (ou mais próximas) de suas ocorrências;
  • Fechamento contábil mensal na data mais próxima possível do encerramento do mês;
  • Contas  patrimoniais, de custos e despesas devidamente reconciliadas.
É importante ter sempre em mente que a Contabilidade foi concebida como técnica e conceituada posteriormente como ciência e é através dela que podemos extrair as principais informações gerenciais para nossas organizações.

Com o avanço dos sistemas informatizados em todas as áreas, o processamento contábil também ficou facilitado, porém observa-se uma certa negligência por parte de muitas empresas (principalmente naquelas que não são auditadas) em relação ao processamento das informações para a Contabilidade e com isso perde-se muito em qualidade.  Por mais incrível que possa parecer, ainda é muito grande o número de empresas que tem a Contabilidade apenas e tão somente como instrumento para atendimento das obrigações fiscais e tributárias e para fins de obtenção de empréstimos / financiamentos junto as instituições financeiras e governo.

A segunda premissa é a existência de controles internos eficientes e de um bom sistema de controle de estoques, pois é daí que se extrai  a principal parcela dos custos na indústria e no comércio. Quanto melhores forem os controles internos e o sistema de apontamento e controle dos inventários, menores são as chances de desvios e perdas para a empresa.

A terceira premissa caracteriza-se na predisposição em estabelecer metas / objetivos em todas as áreas, monitorá-los e revisá-los periodicamente. 

Guardadas as peculiaridades do negócio, porte e estrutura de cada organização, entendo que um bom sistema de informações gerenciais deve, no mínimo, propiciar ou contemplar :

  • Formulação de Planejamento Estratégico ou Plano de Negócios e Controle Orçamentário;

  • Rigoroso planejamento e controle do Fluxo de Caixa;

  • Aprovação dos Investimentos somente após análises e cálculos de retornos;

  • Gerenciamento eficaz das vendas, carteira de pedidos, compras, faturamento, turnover de pessoal, comportamento dos custos fixos e variáveis, formação de preços, margens de contribuição por divisão de negócios e/ou linha de produtos;

  • Processamento contábil que permite fechamento e apuração dos resultados nos cinco primeiro dias úteis do mês subseqüente;

  • Demonstração de Resultados com análise comparativa (real X orçado), dos principais agrupamentos de custos e despesas operacionais;

  • Formulação e acompanhamento de “Indicadores chaves de performance” nas áreas de Vendas, Produção e Administração. 

Como está sua empresa ?

Convido o caro leitor à uma sincera reflexão sobre o assunto: Você acredita que sua empresa não se enquadra em algum dos três grupos retro-mencionados ?

Se você respondeu que ela “não se enquadra”, parabéns, pois sua empresa faz parte de uma minoria e, provavelmente dispõe de um eficaz sistema de informações gerenciais!

Todavia, caso tenha a percepção de que sua organização “se enquadre” (ou apresente características parecidas) com um dos grupos citados, acredito que o momento é apropriado para buscar uma solução definitiva e, para tanto, faz-se necessário:

·    Avaliar, criteriosamente, a qualidade do conjunto das informações gerenciais existentes;

·    Eliminar informações, controles e relatórios que não agreguem valor para a tomada de decisões consistentes;

·    Redefinir o conjunto de informações gerenciais necessárias à uma gestão eficaz, de acordo com o porte e estrutura da empresa; e

·    Desenvolver  uma cultura organizacional focada em resultados.

Tenho a convicção de que um bom sistema de informações gerenciais não é a garantia do sucesso de uma organização, porém certamente será um dos principais contribuintes na sua consecução.

Autor: Carlos A. Zaffani - Consultor em Gestão de Empresas

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Hipocrisia: uma triste ou indiferente realidade nas empresas!

Vamos abordar um assunto que não é tratado ou discutido nos meios acadêmicos nem dentro das organizações, mas que pode comprometer o ambiente, o desenvolvimento e o futuro de uma empresa: a hipocrisia.

O dicionário Houaiss define a hipocrisia como: 1. característica do que é hipócrita, falsidade, dissimulação. 2. ato ou efeito de fingir, de dissimular os verdadeiros sentimentos, intenções; fingimento, falsidade. 3. caráter daquilo que carece de sinceridade.

Em poucas palavras, poderíamos dizer que a hipocrisia é a manifestação de virtudes fingidas de bons sentimentos.

Antes de entrarmos diretamente na discussão do assunto no campo organizacional, creio ser válido tecermos alguns comentários sobre a hipocrisia no contexto do comportamento humano. Sem qualquer pretensão de levantar uma bandeira para uma discussão mais aprofundada, parece-me que a hipocrisia – nos dias atuais - é uma característica comportamental observada em alguns ou vários momentos dentro dos contextos que fazem parte da vida de cada ser humano.

Jacques Anatole France (poeta e romancista francês) dizia que “não há castos: somente doentes, hipócritas, maníacos e loucos”. É lógico que tal afirmação é radical demais para um observador mais sensato, porém acho que poucos discordarão de Napoleão Bonaparte quando disse que “quem sabe adular também é capaz de caluniar!”.

Tenho a impressão de que, atualmente, a hipocrisia está tão impregnada nas relações humanas que em muitos momentos ela é - mesmo que percebida – consentida e bem recebida pelas pessoas, especialmente as inseguras e aquelas com baixa auto-estima ou carência afetiva.
 
Quem já não fez um elogio à alguém apenas para ser gentil? Ou enaltecer uma qualidade inexistente como forma de incentivo a uma pessoa? Ou, de outro lado, ter sido bajulado escancaradamente por alguém que tem um interesse específico em relação a você ou em razão de sua inteligência, capacidade, poder de decisão ou posição social?  

A realidade é que a hipocrisia está aí e, por conseqüência, também está presente no mundo dos negócios e das organizações.

Quantos comerciais que assistimos diariamente na televisão são absolutamente verdadeiros na intenção e/ou na mensagem e/ou nas imagens? Apenas como exemplos: por que as propagandas de cervejas procuram associar o produto, na maioria das vezes, a jovens bonitas, ao conquistador, ao esportista ou ao cara mais esperto?  Ou por que os muitos anúncios de vendas de veículos apresentam e evidenciam um tipo de automóvel e no final, um longo texto (impossível de se ler em um ou dois segundos) é mostrado com as reais condições do negócio anunciado?

Será que não é possível a uma empresa patrocinar um atleta, equipe ou clube e ao invés de dizer que faz isso em prol do desenvolvimento do esporte e da juventude em nosso país, afirmar que só faz o patrocínio institucional porque espera um retorno mais à frente em aumento das vendas, de clientes, da produção e do lucro? Caro leitor, você acharia normal e compraria o produto dessa empresa? Qual seria a reação do mercado como um todo?

Um outro campo onde a hipocrisia é muito marcante é o da responsabilidade social, pois nos últimos vinte anos tornou-se cada vez mais crescente o número de empresas que sentiram a necessidade de passar uma imagem corporativa positiva e socialmente responsável e foi através da propaganda, a forma mais fácil de construir e oferecer ao mercado uma imagem saudável e positiva. O lucro - e só ele - parece continuar a ser a essência de muitas empresas!

Continuo convicto de que inúmeros projetos e programas de muitas empresas são inquestionavelmente excelentes em suas concepções e fundamentalmente importantes para a sociedade, porém, honestamente, acho que é preciso criar uma nova essência de valor para tratar a responsabilidade social sem hipocrisia.

Vamos agora, abordar a hipocrisia dentro das empresas.

Todo profissional com alguma vivência e experiência sabe que, entre outras coisas, pessoas desleais, individualistas, rancorosas, mentirosas, extremamente ambiciosas, bajuladoras e falsas existem em quase todas as organizações. Outrossim, sabe também, que puxões de tapete, promoções absurdas, protecionismos incompreensíveis e desrespeitos pessoais ou profissionais não são ocorrências tão raras. Se todas essas coisas acontecem em tantas empresas, é também fácil supor que a hipocrisia, por estar tão impregnada no comportamento humano, seja uma realidade comumente observada dentro das organizações.  

Seguramente, você que está agora lendo este artigo já foi “ator” (de um lado ou de outro) de alguma situação característica de um comportamento ou atitude hipócrita. Entre os inúmeros exemplos que podem ser mencionados, vamos citar alguns:

·        comunicação da dispensa de funcionário sob a alegação de que não há um motivo específico;

·        empregado que fica após o expediente para mostrar “comprometimento e responsabilidade” para seus superiores;

·        funcionário que chega na empresa e só cumprimenta os superiores;

·        subordinado que só almoça com os chefes;

·       elogio ao chefe mesmo após uma decisão equivocada ou precipitada ou por uma apresentação ruim de um projeto;

·       agradecer pela explicação porque a promoção foi concedida a um outro funcionário e não para si;

·       desculpar-se junto ao superior, após receber uma “bronca” que não merecia;

·       ver que um colega ou superior está prestes a tomar uma decisão errada, mas incentivá-lo assim mesmo;

·       elogiar um colega quando ele está presente e quando o mesmo se retira, critica-o abertamente para o grupo;

·       receber visitantes da matriz de outro país, elogiar o trabalho deles e quando encontra-se sozinho com seu grupo ou superior só sabe criticá-los;

·       dizer que sente-se privilegiado por fazer parte de uma equipe com a qual discorda totalmente;

·       funcionário que ri muito de piadas sem graça contadas pelo chefe;

Poderíamos continuar mencionando outros exemplos também nas relações com clientes, fornecedores, bancos, etc., porém não se faz necessário, até porque a quantidade acabaria preenchendo o espaço que tenho para completar o artigo.

A realidade é que a hipocrisia está aí presente e é difícil dimensionar quando ela não provoca maiores problemas ou consequências ou com que intensidade ou frequência ela se torna um mal efetivo para as organizações.

Neste ponto levanto a seguinte questão: é possível criar um ambiente interno absolutamente isento de hipocrisia?

Atualmente acho muito difícil, senão quase impossível. Primeiramente, em razão da natureza humana, que, em tantas circunstâncias, engana-se ao aceitar a hipocrisia como uma atitude sincera, educada ou motivacional. Em segundo lugar, porque no mundo corporativo, apesar do esgotamento dos atuais modelos de gestão, ainda não se conseguiu desenvolver um novo modelo em que prevaleça – nas palavras, nos gestos e nas ações – a sinceridade absoluta, o respeito em todos os graus e a franqueza custe o que custar.

Exemplificando: imagine um ambiente em que, após estudos profundos e conclusivos, a direção chamasse todos os funcionários e, entre outras ações, anunciasse, com total franqueza, o corte de “X” funcionários para viabilizar a manutenção da operação com a lucratividade mínima imposta pelos acionistas e como o fluxo de caixa estivesse deficiente, seria possível pagar somente os direitos trabalhistas normais. O que aconteceria com o moral e comportamento dos funcionários? Quem seriam os escolhidos para demissão? Como fazer um corte sem protecionismos ou preferências pessoais? Qual seria a posição do Sindicato diante dessa situação?

Imagine agora, uma outra empresa que dentro do espírito de transparência e franqueza total, colocasse no quadro de avisos, a relação de todos os diretores, gerentes, supervisores e demais funcionários com seus respectivos salários e benefícios. Dá para imaginar a aceitação plena por parte de todos? E aqueles que não aceitassem, poderiam se manifestar sem qualquer represália?

Suponha agora, um funcionário atendendo uma reclamação em razão da qualidade e o mesmo concordar com o cliente que, apesar da certificação ISO 9000, o produto adquirido é o que de melhor a empresa consegue fazer, que o produto do concorrente é superior, mas que espera que, como cliente, ele entenda a situação e continue comprando em razão da franqueza demonstrada. Ponha-se no lugar desse cliente e diga-me o que você faria ou diria?

Em conclusão, parece-me que ainda estamos distante da existência de um ambiente corporativo isento de hipocrisia. Todavia, apesar da provável maioria de gestores e consultores especializados discordarem, como observador e interessado no desenvolvimento da gestão empresarial, acredito que um dia isso será possível se, desde já, for iniciada uma mudança de conduta de nossas lideranças com práticas diárias de gestos e ações onde prevaleça a franqueza (em tudo que for possível) e incentivando o aprendizado sobre o que é hipocrisia e seus malefícios para as pessoas e para a organização.

A “desipocritização” (embora a palavra não exista) de nossas organizações será uma das mais árduas tarefas que os grandes gestores do futuro terão pela frente. Por ora, talvez tenhamos que concordar com Rafael Russon quando afirma que “a hipocrisia no ambiente de trabalho começa na entrevista de emprego e só termina com aquele e-mail de despedida ao sair”.

É uma triste realidade, infelizmente!

Bom trabalho e até breve!


Autor: Carlos A. Zaffani  -  Consultor em Gestão de Empresas